Jogo Digital, cultura real

Neste momento, os indígenas Guarani, do Pico do Jaraguá, desocupam um território sagrado por conta de uma ação judicial movida pela construtora Tenda (pertencente ao grupo Itaú).


O coletivo Diversitas Usp, núcleo de pesquisa ao qual faço parte, busca contribuir através de várias frentes em prol da resistência contra esta barbárie.




Me sinto um bocado incapaz de contribuir com a questão neste exato momento. Algo urgente está acontecendo. Mais uma vez, uma grande corporação vence uma batalha contra o povo. Aliás, um dos povos originários do nosso país que alguns de vocês, tão patriotas, dizem defender.


Não parece nada muito prático ou urgente quanto o enfrentamento ao vivo no território. Minha pequena contribuição acontece na área de cultura, de educação não formal, de prevenção à coisas ruins que podem acontecer. E esse filtro, na minha opinião, falhou.


Uma das críticas que pesquisadores da área de diversidade e jogos digitais trabalham atualmente é com relação à própria cultura gamer. Sendo mais específico, à essa cultura de entretenimento massificado, à qual faz parte de uma lógica trabalho-descanso (Hannah Arendt), na qual nos colocamos alheios à questões que achamos que não interferem no nosso dia-a-dia.


Daí, imersos nos nossos shooters, Battle Royales e Rpgs, não conseguimos sequer ouvir o que as pessoas tem a dizer ...


Ignorando as lutas urgentes, também não damos o menor valor à produções culturais de dimensão sociológica, estas criadas a partir de mídias como os games e que buscam tornar visíveis pautas que não o são. A invisibilidade de pautas urgentes continua sendo fortalecida através da indústria do entretenimento, à qual possui mecanismos de manutenção à hegemonia das mesmas pessoas que criam e dos mesmos conteúdos.


Sei que em um momento de tanta urgência, na iminência do uso de força para o cumprimento de ações judiciais, a camada cultural parece ter furado. Sem falar na ética. Em meio ao caos, continuo tentando contribuir com o pouquinho que consigo fazer: compreender as nossas mais diversas culturas a partir das imersões em jogos digitais.


Huni Kuin



Link para o jogo: http://www.gamehunikuin.com.br


Não me lembro de outro jogo digital sobre culturas indígenas, mas, com certeza, há. Aliás, você conhece algum?


Huni Kuin, produzido por meu amigo Guilherme Meneses, foi desenvolvido em parceria com indígenas da etnia Huni Kuin. Parte deles vivem próximos ao Rio Jordão, no Acre. Inclusive, tive a grata oportunidade de conhecer também uma das lideranças que trata de questões culturais dos grupos, o Isaka Huni Kuin.


Um fato interessante, e que não pode ser ignorado nas discussões, é o fato do jogo ter sido desenvolvido em parceria com a comunidade. Não somente sobre as pessoas, mas com as pessoas. Além das histórias serem contadas por integrantes diretos das comunidades Huni Kuin, trata-se de uma possibilidade de tornar um pouco mais visível a fala destas pessoas. O que chamamos, na pesquisa, de protagonismo do lugar de fala (Djamila Ribeiro).


Ah, uma coisa importante. Não sou especialista em culturas indígenas. Contudo, há muitas e muitas comunidades indígenas no Brasil. Cada comunidade possuis suas próprias culturas. Assim, não é possível generalizá-las.




Quem sabe, você que curte jogar (e que talvez não curta ler livros), possa conhecer um pouquinho da cultura dos Huni Kuin e de outras comunidades indígenas.


Quem sabe, jogos como este ajudem na compreensão da importância de preservarmos a cultura da diversidade. De apoiarmos a diversidade das histórias e também de quem as conta. De ficarmos ao lado do povo, e não de grandes corporações que só pensam no capital e em seus acionistas.


Quem sabe, se alguns de nós nos tornarmos menos escrotos, o esforço tenha valido à pena.


O jogo é digital, mas a cultura é real.


Texto: Jaderson Souza

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